{"id":438,"date":"2017-11-03T23:26:19","date_gmt":"2017-11-04T01:26:19","guid":{"rendered":"http:\/\/bidonet.com.br\/blog\/?p=438"},"modified":"2017-11-03T23:26:19","modified_gmt":"2017-11-04T01:26:19","slug":"o-chove-nao-molha-do-amor-liquido","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/bidonet.com.br\/blog\/?p=438","title":{"rendered":"O Chove n\u00e3o Molha do Amor L\u00edquido"},"content":{"rendered":"<p>Por: Erick Morais<\/p>\n<p>Chegamos em um momento em que n\u00e3o sabemos o que somos. Sabemos que n\u00e3o somos modernos, pois a raz\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o poderosa quanto outrora, mas tamb\u00e9m, ainda n\u00e3o sabemos em que est\u00e1gio estamos. Assim, a contemporaneidade \u00e9 chamada de p\u00f3s-moderna, ou como prefere o soci\u00f3logo Polon\u00eas Zygmunt Bauman \u2013 Modernidade L\u00edquida.<\/p>\n<p>Nesse universo, tudo \u00e9 flu\u00eddo e muda com extrema rapidez, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para coisas s\u00f3lidas, j\u00e1 que em tempos l\u00edquidos, tudo que \u00e9 s\u00f3lido desmancha no ar. Dessa maneira, o amor tamb\u00e9m assume uma nova face diante de todas essas mudan\u00e7as, assumindo uma forma l\u00edquida.<\/p>\n<p>Como dito, o mundo p\u00f3s-moderno \u00e9 marcado pela extrema fluidez e velocidade que as rela\u00e7\u00f5es possuem, de tal modo que a facilidade em desconectar \u00e9 o principal elemento das rela\u00e7\u00f5es. Uma rela\u00e7\u00e3o que nos prende, finca ra\u00edzes e que, por conseguinte, n\u00e3o permite desconectar com tanta facilidade \u00e9 um fardo que o homem contempor\u00e2neo parece n\u00e3o querer carregar.<\/p>\n<p>Assim, como se estivessem numa grande feira, os indiv\u00edduos compram, trocam e vendem relacionamentos. Tudo isso gra\u00e7as \u00e0 facilidade de desconectar. Acreditam que com as suas in\u00fameras experi\u00eancias tornam-se experts no amor. Entretanto, o que adquirem \u00e9 apenas a:<\/p>\n<p>\u201cHabilidade de terminar rapidamente e come\u00e7ar do in\u00edcio.\u201d<br \/>\nOu seja, os muitos relacionamentos n\u00e3o significam necessariamente mais amor. A rapidez com que se troca de parceiros e se descarta os relacionamentos n\u00e3o permite conhecer o outro a ponto se relacionar verdadeiramente. Em verdade essa fluidez chega a ser um contrassenso a ideia de relacionamento, uma vez que relacionar-se significa levar consigo, e portar algu\u00e9m est\u00e1 fora do card\u00e1pio p\u00f3s-moderno.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 tentador afirmar que o efeito dessa aparente aquisi\u00e7\u00e3o de habilidades tende a ser, como no caso de Don Giovanni, o desaparecimento do amor \u2013 uma exercitada incapacidade para amar.\u201d<br \/>\nEstamos presos ao nosso pr\u00f3prio eu, o que se tornou ainda mais vi\u00e1vel com o desenvolvimento dos aparelhos tecnol\u00f3gicos e a internet. N\u00e3o queremos nos dar o trabalho de investir numa rela\u00e7\u00e3o, tudo \u00e9 uma quest\u00e3o de custo-benef\u00edcio. Os relacionamentos transformaram-se em meras mercadorias, de forma que o que se busca \u00e9 sempre lucrar com o produto final.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 tempo para a semeadura, a qual al\u00e9m de levar tempo \u00e9 desgastante. Queremos t\u00e3o somente usufruir o produto acabado, e quando este j\u00e1 n\u00e3o nos serve, trocamos por outro, afinal, essa \u00e9 a l\u00f3gica do mercado, e o amor nesse contexto, tamb\u00e9m se encontra na vitrine.<\/p>\n<p>\u201cE assim \u00e9 numa cultura consumista como a nossa que favorece o produto pronto para o uso imediato, o prazer passageiro, a satisfa\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea, resultados que n\u00e3o exijam esfor\u00e7os prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolu\u00e7\u00e3o de dinheiro.\u201d<br \/>\nOs relacionamentos, assim, s\u00e3o vistos como investimentos comerciais. N\u00e3o h\u00e1 tempo a perder, \u00e9 preciso estar atento ao mercado, pois quando este acenar com possibilidades melhores, tenho que estar pronto para me desfazer dos relacionamentos que possuo e usufruir de outros melhores.<\/p>\n<p>\u201cPara o parceiro, voc\u00ea \u00e9 a a\u00e7\u00e3o a ser vendida ou o preju\u00edzo a ser eliminado \u2013 e ningu\u00e9m consulta as a\u00e7\u00f5es antes de devolv\u00ea-las ao mercado, nem os preju\u00edzos antes de cort\u00e1-los.\u201d<br \/>\nO amor l\u00edquido \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o dos homens em mercadorias, \u00e9 a solid\u00e3o de uma sociedade individualista que busca relacionar-se, mas sem se envolver, como se as pessoas fossem descart\u00e1veis. A inseguran\u00e7a impede que ra\u00edzes sejam fincadas, que o produto acabado transforme-se em produto constru\u00eddo, que algu\u00e9m esteja dentro de mim. No m\u00e1ximo o que s\u00e3o permitidos s\u00e3o os \u201crelacionamentos de bolso\u201d, os quais voc\u00ea guarda no bolso de modo a poder lan\u00e7ar m\u00e3os deles quando for preciso.<\/p>\n<p>Amar significa perder tempo, ter dor de cabe\u00e7a, estar pronto a arriscar, pois nada \u00e9 um produto acabado, mas antes uma constru\u00e7\u00e3o perene. \u00c9 imposs\u00edvel saber se est\u00e1 certo ou errado, pois ainda n\u00e3o chegou-se ao fim do caminho. E amar \u00e9 investir na semeadura, mesmo antes de saber se os frutos nascer\u00e3o. \u00c9 preciso esfor\u00e7a-se numa rela\u00e7\u00e3o, estar pronto em alguns momentos a abdicar do seu eu, colocar-se no lugar do outro, o que em:<\/p>\n<p>\u201cUma cultura na qual s\u00e3o raras essas qualidades, atingir a capacidade de amar ser\u00e1 sempre, necessariamente, uma rara conquista.\u201d<br \/>\nVivemos numa sociedade hedonista, em que tudo que retarda a satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 visto de forma inadequada, e o amor, o qual precisa de tempo, encontra-se nessa inadequa\u00e7\u00e3o. Dessa forma, os relacionamentos de bolso escondem a inseguran\u00e7a e o medo das pessoas se envolverem, assim como a incapacidade de sa\u00edrem da zona de conforto e perder tempo com algo. Queremos um amor que nos satisfa\u00e7a e que por algum momento nos afaste a solid\u00e3o, mas n\u00e3o queremos ter o trabalho de nem por um momento ter um peso que nos impe\u00e7a de flutuar, afinal:<\/p>\n<p>\u201cVivemos em tempos l\u00edquidos. Nada \u00e9 para durar.\u201d<br \/>\nO amor \u00e9 feito pelos amantes a todo o momento, \u00e9 um ato criativo que apenas no envolvimento dos amantes \u00e9 capaz de se manifestar. \u00c9 apenas para os corajosos, que n\u00e3o t\u00eam medo de se arriscar e que sabem que h\u00e1 m\u00e1gicas que apenas o inesperado possui, uma vez que:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 ansiado por coisas prontas, completas e conclu\u00eddas que o amor encontra o seu significado, mas o est\u00edmulo a participar da g\u00eanese dessas coisas. O amor \u00e9 afim \u00e0 transcend\u00eancia; n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o outro nome para o impulso criativo e como tal carregado de riscos, pois o fim de uma cria\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 certo.\u201d<br \/>\nShare on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on TumblrPin on PinterestEmail this to someone<br \/>\nSobre o autor<\/p>\n<p>Erick Morais<\/p>\n<p>Um menestrel caminhando pelas ruas solit\u00e1rias da vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Erick Morais Chegamos em um momento em que n\u00e3o sabemos o que somos. Sabemos que n\u00e3o somos modernos, pois a raz\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o poderosa quanto outrora, mas tamb\u00e9m, ainda n\u00e3o sabemos em que est\u00e1gio estamos. Assim, a contemporaneidade \u00e9 chamada de p\u00f3s-moderna, ou como prefere o soci\u00f3logo Polon\u00eas Zygmunt Bauman \u2013 Modernidade L\u00edquida. 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